quarta-feira, 21 de outubro de 2009

PERDÃO - PARTE II



Perdão

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O perdão é um processo mental ou espiritual de cessar o sentimento de ressentimento ou raiva contra outra pessoa, decorrente de uma ofensa percebida, diferença ou erro, ou cessar a exigência de castigo ou restituição.
O perdão pode ser considerado simplesmente em termos dos sentimentos da pessoa que perdoa, ou em termos do relacionamento entre o que perdoa e a pessoa perdoada. É normalmente concedido sem qualquer expectativa de compensação, e pode ocorrer sem que o perdoado tome conhecimento (por exemplo, uma pessoa pode perdoar outra pessoa que está morta ou que não se vê a muito tempo). Em outros casos, o perdão pode vir através da oferta de alguma forma de desculpa ou restituição, ou mesmo um justo pedido de perdão, dirigido ao ofendido, por acreditar que ele é capaz de perdoar.
O perdão é o esquecimento completo e absoluto das ofensas, vem do coração é sincero, generoso e não fere o amor próprio do ofensor. Não impõe condições humilhantes tampouco é motivado por orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras.
Existem religiões que incluem disciplinas sobre a natureza do perdão, e muitas destas disciplinas fornecem uma base subjacente para as várias teorias modernas e práticas de perdão.
Exemplo de ensino do perdão está na "parábola do Filho Pródigo" (Lucas 15:11–32).
Normalmente as doutrinas de cunho religioso trabalham o perdão sob duas óticas diferentes, que são:
• Uma ênfase maior na necessidade das faltas dos seres humanos serem perdoadas por Deus;
• Uma ênfase maior na necessidade dos seres humanos praticarem o perdão entre si, como pré-requisito para o aprimoramento espiritual.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Perd%C3%A3o



Recentemente com uma amiga, retomamos um assunto já postado aqui anteriormente, onde eu questionava a real possibilidade de perdoar, como sendo uma verdade plena.

O artigo anterior:

http://aideofobia.blogspot.com/2009/01/perdoar-per-donare-doao-de-si.html

A Thatiana mantém o valor do perdão muito agregado a valores religiosos, e quem sabe, aquele que realmente em fé, “consiga” perdoar, pois este perdão se dá em Deus. Por ser cético e compreender o espírito humano de outra maneira, não vejo tal perdão acontecendo (dependendo do ato a ser perdoado), seja em Deus ou na alma do indivíduo.

Este artigo comenta um texto chamado “O poder do perdão” de Ágata Székely, publicado na Revista Seleções. A íntegra pode ser lida pelo link:

http://www.selecoes.com.br/revista/5621/O-poder-do-perdao.html

A autora menciona Elton John e diz que além de ser difícil perdoar, perdão é uma palavra mal-entendida.

A valoração que ela dá ao perdão em um primeiro momento, trata somente de eventuais superficialidades, nada de realmente importante e coloca o perdão como necessário para não se sentir o rancor, que é algo que nos incomoda no presente.

A grande questão é: podemos sublimar a lembrança, podemos desconsiderar a pessoa e nos afastar dos sentimentos ruins que determinado ato nos causou, sem que seja necessário perdoar. Perdoar não é o único instrumento que nos permite um alívio da alma, ainda que seja um deles.

Fred Luskin, psicólogo da Universidade de Standford afirma que os problemas devem ser solucionados. Concordo plenamente, até pelo fato de um problema sem solução não ser um problema. Ele diz ainda que o perdão é para nós mesmos e não para quem nos ofendeu. Certo, mas isso encerra a questão do perdão vista por uma ótima religiosa, e transforma o perdão em uma outra coisa, do tipo sublimar, não lembrar, não permite reconciliação, o que não está fora dos conceitos que apresentei para perdão, ou se recoloca semanticamente em uma nova interpretação.

Segundo Luskin:

“[...] o perdão serve para relaxarmos e não significa que o agressor “se dê bem”, nem que aceitamos algo injusto. Ao contrário, significa não sofrer eternamente pela ofensa ou pela agressão.”

Perfeito, realmente não faz sentido manter sentimentos que nos tragam angústia, então, assim como tantas outras coisas que precisamos “esquecer”, este tipo de perdão pode e deve ser instaurado em nós sempre que necessário.

O exemplo citado pela autora relacionado ao Capitão John Plummer não é um bom exemplo para perdão. É uma situação específica, onde alguém recebe ordens, e em uma guerra tais atos são comuns. Não haveria hoje convivência pacífica na Europa se um tipo de perdão deste gênero fosse realmente necessário. Tentei tratar o perdão em relações mais próximas e pessoais. Situações limite como uma guerra, trazem a possibilidade de “distribuição de culpas”, entre o momento histórico, o governo de cada um dos países, etc. Não há quem culpar diretamente, então também não há a quem perdoar.


Boris Cyrulnik, também citado, viveu uma situação extrema de campos de concentração nazistas. Ele traz como “solução” para a questão, nas palavras dele:

“Dá trabalho, não é fácil, mas é um espaço de liberdade interior que permite não se submeter às feridas.”

Ainda assim, não se trata de perdão, e sim de sublimação e de busca da liberdade interior, liberdade do espírito, abandonar angústias.

Na verdade, não se deve manter um papel de vítima e as dores emocionais devem ser superadas, e não importa se isso é feito pelo perdão ou pela sublimação, sendo que a sublimação é mais real.

Segundo a psicoterapeuta Rosa Argentina Rivas Lacayo, presidente da Associação Latino-americana de Desenvolvimento Humano e da Associação de Orientação Holística do México, “sem perdão não podemos crescer nem ficar mais fortes com a adversidade. Também não conseguiremos ser flexíveis e resilientes. Algumas pessoas ‘cozinham’ a dor em fogo brando para mostrar ao mundo como foram maltratadas, e não querem perceber que assim se prejudicam. Ao mundo, não interessa o nosso passado, só o que somos capazes de fazer e dar agora. Quando nos apegamos à dor antiga, a autocomiseração embota a capacidade de dar e, quando assumimos o papel de mártires, ficamos à espera de que alguém resolva milagrosamente a nossa vida.”

Perfeito, existe sim a vitimização e muitas vezes se fazer de vítima é chamar atenção para uma carência e eventualmente, uma motivação para uma vingança qualquer. De forma geral, não é um sentimento bom, ainda que em situações específicas, necessário.

Rivas Lacayo diz: “[..] o perdão nos ajuda a reconhecer e admitir que somos frágeis e que não precisamos esconder essa fragilidade. Quando nos tornamos conscientes dos nossos limites, evitamos que a experiência se repita”.

Na verdade, o fato de termos nos sentido emocionalmente abalados é o que nos mostra nossa fragilidade, pois sem esta, não teríamos sofrido e não teríamos o que perdoar. Devemos sim ter consciência de nossos limites, não somente para evitar que determinada experiência se repita, mas para que possamos evitar que venha a acontecer.

Nascemos livres e somos livres sempre, fazemos escolhas, opções, e até mesmo não fazer uma escolha é uma escolha. Em muitas situações, somos responsáveis inclusive pelo que fazem conosco, pois “permitimos” que algo seja feito e não é raro “não nos perdoarmos” por isso, mas geralmente o sentimento surge à posteriori.

Não é possível negar, que todo e qualquer sentimento ruim deva ser afastado, e que as angústias que carregamos nos fazem mal. Sabemos também, que muitas das angústias emocionais acabam por atingir a nossa saúde física. Todavia, limitar nossa capacidade de nos livrarmos de sentimentos ruins pelo perdão, é no mínimo pouco sensato. É como dizer: se você não consegue perdoar, manterá determinada angústia. Não é bem verdade, podemos desenvolver outros instrumentos que sejam tão eficazes quanto o perdão.

Aparentemente, o artigo traz uma nova semântica para a palavra perdão, porém fazendo isso, além de colidir com a interpretação de perdão pelo senso comum, que pertence a um grande número de pessoas, elimina outras saídas viáveis para a busca de um alívio emocional.

Não podemos nos esquecer, que para muitas pessoas, uma vingança quando possível, também traz o alívio necessário. Não estou aqui fazendo uma apologia a respeito da vingança, mas mostrando que entre outros, há situações onde este instrumento também é válido e outra parte merece.

Há uma questão social muito forte, com grande influência religiosa, que torna a vingança algo excessivamente reprovável, torna o homem um cordeiro, um fraco, e esquece que entre tantos instrumentos que a natureza nos deu para sobreviver e continuar a espécie, está a defesa.

De qualquer maneira, a busca deve estar centrada no amor, na ética, na verdade e na justiça, ainda que eventualmente se faça necessário o uso da força.

Dedicado a minha querida amiga Thatiana, que faz com que eu pense em como dar “valorações” a certos elementos espirituais humanos.

Tadziu

2 comentários:

Thati Bordados disse...

Puxa querido, que honra, um texto sobre perdão, dedicado a mim! Gostei de ler as mais diversas opiniões de estudiosos, e ainda que nossa opinião não seja igual, fico feliz em saber que podemos ser amigos e nos respeitarmos apesar das nossas diferenças.
Baci

Luiza disse...

Ainda acredito que o melhor instrumento para perdoar e ser perdoado é o amor, o que compreende o respeito pelo próximo,sua liberdade e o entendimento do contexto onde o erro ou a mágoa foi provocado ainda que o provocante não tenha percebido o que fez, sempre vale a pena DIALOGAR e tendo amor há superação o que não é obrigatório que a confiança continue a existir.
Para acontecer o perdão é preciso agir rápido para que não cresça a mágoa e o coração "desbote" e a relação se contamine...

Por mais dura cerviz, por mais racional que sejamos, o amor, o perdão ainda são as molas propulsoras para um bom relacionamento seja qual tipo for. Ah! Se pudessemos ou conseguirmos somar os três tipos de amor; Eros, Filos e Ágape...os relacionamentos teriam mais brilho.