quarta-feira, 26 de maio de 2010

Crônica de uma cantora lírica tupiniquim

Crônica de uma cantora lírica tupiniquim



Quero através desta expressar e dividir minhas indignações profissionais atuais. Eu, enquanto cantora lírica no país do rebolation, venho convocar meus companheiros e companheiras de classe operária – a musicista – nessa luta pelo reconhecimento de nosso valor profissional.

Só não quero ter que perder o dedinho, porque vai que isso afeta minha voz...Cantor tem dessas coisas; toma coca-cola quente (delíiiicia!!), porque gelado pode fazer mal, e o cara tem que cantar num concerto sábado. Melhor prevenir. Por via das dúvidas, melhor parar de tomar leite, comer chocolate, por causa do pigarro. Já que moramos numa cidade bem poluída, melhor tomar muita água mesmo, 5 goles a cada frase, pra sujeira sair vaso sanitário abaixo. Tem muito cantor hidráulico por aí. Conheço até um que tem um baita desvio de septo. O otorrino disse que não sabe como ele respira, melhor operar. “Não, doutor! Vai mexer com minha ressonância!”. E lá se vão noites e noites de respiração dificultosa, inalação, spray disso, remédio d’aquilo, chá de folha de sei-lá-o-que. Falaram que faz bem, Pavarotti fazia.

Mas o fato é, minha gente, que carece esclarecer e desmistificar um fato: cantor também é músico. Pronto, falei. Por que cargas d’água ainda (ainda!) se acha que nós abrimos a boca e cantamos, por pura inspiração divina ou alguma psicografia às avessas (ou psicofonia?). É certo que cantor não estuda 8 horas por dia, como muitos amigos instrumentistas por aí; até por que, se o infeliz faz isso, a carreira não dura um mês. É duro, gente, chama-se musculatura. Mas porque diabos a gente se acaba de estudar pra entrar numa universidade – pública, lógico. Desde quando músico tem dinheiro pra bancar faculdade? – passa horas estudando técnica vocal, história da música, harmonia, contraponto (sim, até isso! Vai que te contratam pra cantar ars antiqua ou algum moteto, madrigal por aí, a gente tem que estar pronto pra tudo hoje em dia! Time is Money!), análise...Análise! lembro que no 1º ano do Bacharelado em Música com habilitação em Canto e Arte Lírica... Uau! Vou escrever de novo porque esse título soa muito bonito, fala a verdade: Bacharelado em Música com habilitação em Canto e Arte Lírica...Mas voltando à análise, lembro-me de no meu inocente 1º ano surtar por causa da maldita análise. Quase fui eu própria para a análise. E o 4º ano? Recital de formatura! Tcc! Perdi uns bons 3 quilos, por causa do maldito fim de curso. O que minha nutricionista diria? “Você está abaixo do peso, garota! Vá fazer Engenharia e arranje um emprego!”. E lá vamos nós decorar canção em polonês, russo, tcheco, fora as normais, que cantor tem mais que obrigação de saber mesmo: italiano, inglês, latim, alemão, francês. E como é que raios eu vou saber como é que se pronuncia Ma pisen zás mi laskou zni kdyz stary den umira ? Dá-lhe transcrição fonética. Dois anos do Bacharelado em Música com habilitação em Canto e Arte Lírica para aprender os tais símbolos fonéticos universais. Benditos! Não fossem eles, o que seria de nós, pobres cantores, que inventamos de cantar em tcheco? Dvorak bem podia ter escrito as Canções Ciganas em italiano, latim.

Fora isso, o que dizer das horas em frente à tela do youtube, assistindo 40 versões diferentes daquela bendita ária que você vai cantar num concerto no município da Paçoquinha do Sul, que alguém te passou sabe deus como. “Não tem cachê não, mas vai ter lanche!”. E lá vamos nós, pelo menos fome não vamos passar, e ainda tem a boa (tomara) experiência de cantar com a tal orquestra juvenil da cidade de Paçoquinha do Sul. Vamos lá, somos todos estudantes! Eu mesma já fiz muita coisa de graça, por puro amor a arte e que me deram muito prazer e orgulho. Cantei uma vez a 9ª de Beethoven numa igrejinha m Santo André que tinha umas 1.500 pessoas empilhadas quase até o teto. Foi lindo! As lágrimas rolavam.

Então, depois de 4 anos que pareceram uma eternidade, fora os outros tantos e tantos anos que você estudou antes da Universidade – afinal, universidade, não é curso elementar, minha gente, já se entra lá sabendo – em que você estressou, arrancou os cabelos, entrou em pânico pela faringite que você pegou bem na semana do teu recital, depois de muito gastar com aula particular – e vai gastar pelo resto da vida, viu? Sinto muito dizer, é um aprendizado eterno. Ninguém simplesmente ‘se forma’ – isso sem falar em fonoaudiólogo! Pelo amor, nem vou entrar nesse assunto. Cantor é cheio das crises: minha voz quebrou naquele mi 5 de 9 tempos que cantei no fim daquela ária do final do recital. No dia seguinte, lá está o infeliz sentado com um fio entrando pelo nariz e uma câmera na goela. Melhor prevenir. Por via das dúvidas, sai de casa naquele calor de 36 graus com uma echarpe enrolada no pescoço. Está um ventinho lá fora, melhor não pegar friagem. Então, depois de muito estudo, muito tempo, muito empenho, muito dinheiro gasto, vem a parte boa: vamos ganhar dinheiro com nossa arte! Mais que merecido, fala a verdade!

O bom é que as notícias circulam muito rápido: vai haver um teste para cantores para um coral sei la do que, sei la onde, sei la quanto. E lá você encontra todos os cantores da cidade, porque afinal, não tem tanto emprego assim, e quando aparece, vai todo mundo mesmo. Daí você prepara sua melhor ária, acorda as 6h da manhã, que é pra voz ‘subir’, veste roupa de audição e canta tudo. A grana era boa, mas você não passa. Tudo bem, haverá outros e lá estaremos todos novamente. Aí você passa! Olha, serão 58 ensaios, 12 apresentações e o cachê é $ 150. Daí você pensa: eu devia ter feito aquela análise no 1º ano do Bacharelado em Música com habilitação em Canto e Arte Lírica. Seria bem útil agora. Querem que você cante por $10 a hora, porque, afinal, é só abrir a boca e cantar, não precisa muita coisa. E você tem que engolir que aquele seu amigo violinista vai receber pelo mesmo trabalho, uns 2.500, com a diferença q ele vai ter menos da metade dos 58 ensaios, afinal ele é um profissional. É, quem mandou não estudar 8h por dia? O cara é músico, você é cantor. Singela diferença. Há? Velho mito de que qualquer um pode cantar, não discordo totalmente dessa ideia tão orfeônica, por assim dizer, salvas algumas considerações que aqui não cabem, mas se pretensamente se quer tirar a música erudita brasileira do amadorismo, há que se começar valorizando os profissionais da área, inclusive os incipientes. Ou vamos encher os palcos com pessoas da platéia que queiram ao invés de assistir, participar ativamente e fazer uma bela leitura a primeira vista de um Verdi qualquer. Precisa ser músico não, nem cantor. É só abrir a boca e deixar a emoção fluir. O mais triste, se é possível imaginar, é que nós cantores temos a propensão de aceitar. Nesse ponto, meus amigos instrumentistas são bem mais unidos. Deu a hora do fim do ensaio, pegam seu instrumento e vão embora. Cantor fica lá tomando bronca de regente, assistente, produtor, diretor cênico, maquiador, figurinista, faxineira, cabeleireiro e quem mais estiver presente até a hora que alguém apagar a luz e fechar as portas do teatro e dispensar o coro. E não se atrase amanhã! 90 dias depois da última récita seu cachê de $200 estará a sua disposição. O que eu não entendo é porquê. Se a própria classe não se valoriza, quem valorizará? Se nós não assumirmos nossa postura de profissionais que somos, quando sairemos desse pseudo amadorismo? Desculpe-me, mas por $10 por hora eu fico em casa apreciando o DVD da mais nova montagem de Carmem que comprei, que, aliás, me custou $150, e vou aprender bastante com isso. Porque cantor não ‘assiste’ ópera, estuda as personagens, o enredo, a orquestração e todo o resto. Paga-se em média 10 vezes isso em míseros 60 minutos de uma aula de canto com um bom professor. Aula essa para a qual você precisa se preparar bem antes, ou ela vai ser ruim e você gastará dinheiro à toa. Ainda dá pra dar aquela estudadinha no modus novus antes de dormir. Um solfejinho nunca é demais, a gente tem que ler mesmo.

Apesar de tudo, eu acredito no futuro da nossa música erudita. Os teatros estão cada vez mais cheios, cada vez mais se investe em montagens de óperas, concertos, orquestras, formação de público. Só espero estar viva para usufruir disso.

É, acho que antes do mestrado eu faço aquela análise.



Angélica Mz.

3 comentários:

Ulisses Montoni disse...

Concordo com você,cara colega,em praticamente tudo(exceto aquele negócio de coca-cola quente ser bom????))enfim...felizmente a gente vai amadurecendo ao longo dos anos e percebe que muitas dessas bizarrices que são atribuídas aos cantores,são na verdade estereótipos antigos,criados por algum despeitado pobre mortal que não consegue entender como nós,cantores liricos conseguimos produzir sons tão incríveis apenas com nossa voz...
Quando se fala em cachê,realmente a diferença entre cantores e instrumentistas é gritante! E não deveria ser assim(até porque,cantor não grita,emite agudos!)
Justamente por conta disso,eu e Marly resolvemos gravar um CD e ter um site próprio,coisas infelizmente ainda não tão comuns para cantores líricos brasileiros.Se até a Banda Colapso,ops..digo,Calipso tem seu site pra mostrar sua..."ARTE",não é?Fizemos isso para tentar passar um pouco mais de respeito a quem nos contrata,seja pessoa física ou jurídica.Ainda não deu muito certo,mas tudo bem...espera a copa do mundo terminar!!

Carolina disse...

Angélica....

Adorei este texto...muito bem escrito...são as palavras que inúmeras vezes só pensamos, pra não ser tão chato e mal-humorado assim, e que diversas vezes falamos, reclamamos aos quatro cantos...

O último absurdo merece muito mais que este texto...merecia um protesto....mas como você muito bem disse, cantor é bobo, se sujeita a qualquer coisa...se fosse a orquestra, queria ver se seria assim....

Um abraço,

Carolina e Carla.

Flavia D'Álima disse...

Muito bacana!
Vida de artista é vida de doido, no mínimo