quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

EPICURISMO E ESTOICISMO - CONCEITOS PARA BUSCAR A FELICIDADE

O homem vive hoje uma grande crise e encontra-se deslocado e solitário, talvez de uma maneira nunca antes vista. A busca da felicidade, que parece ser algo que tem início em um período difícil de demarcar, ainda está presente, porém com uma grande diferença gerada pelos conflitos entre razão e mito.

Epicuro de Samos foi um filósofo ateniense do século IV a.C., e sua filosofia foi seguida por muitos outros, chamados epicuristas.

O epicurismo surge num momento histórico onde o indivíduo se distancia da política. Há uma decadência sócio-política na Grécia e os filósofos da época tentam conseguir a melhora, o desenvolvimento interior do homem, saindo da “normal” preparação para a política. Talvez, hoje, até possamos traças alguns paralelos com a mesma situação.

Os pensamentos de Epicuro foram mal entendidos e ainda hoje, quando se lida superficialmente com a filosofia dele, tende-se a compreender erroneamente a genialidade e o desapego material deste grande filósofo.

A busca da felicidade para Epicuro, centrava-se na busca da libertação, de prazeres na verdade moderados e saboreados também com a razão.

Epicuro era sensato, tinha bom senso, um senro refinado, era nobre de sentimentos, e seus textos mostram bem isso.

O epicurismo valorizou as sensações como a lógica do conhecimento e a percepção do sensível. Tentou livrar o homem de medos relacionados a vida, morte, deus e outras crenças assustadoras.

Com base na doutrina proposta, o homem poderia eliminar seus temores, que atormentavam sua alma, e sentir-se como um ser realmente integrado à natureza. Uma vez integrado à natureza, é possível dosar e selecionar os prazeres aceitando-os.

Não há prazer imediato, não é esta a maneira que o Epicurismo usa para tratar a questão. Claro, o homem mediano, vulgar, irá compreender o prazer da “pior” maneira possível, porém, o prazer buscado deve ser avaliado pela razão, ser escolhido de maneira prudente.

O prazer deve ser dominado e nunca o contrário.

Viver feliz é o princípio e o fim. Não existe a necessidade de poder ilimitado, ganância e outros. Deve-se saber e ter discernimento para separar aquilo que é prudente.

Epicuro busca um prazer dosado, controlado, que possa trazer felicidade, paz e liberdade. Não é vulgar ou libertino.

“Quando dizemos que o prazer é a meta, não nos referimos aos

prazeres dos depravados e dos bêbados, como imaginam os que

desconhecem nosso pensamento ou nos combatem ou nos

compreendem mal, e sim à ausência de dor psíquica e à ataraxia da

alma. Não são com efeito as bebedeiras e as festas ininterruptas, nem

o prazer que proporcionam os adolescentes e as mulheres, nem comer

peixes e tudo mais que uma rica mesa pode oferecer que constituem a

fonte de uma vida feliz, mas aquela sóbria reflexão que examina a

fundo as causas de toda escolha e de toda recusa e que rejeita as

falsas opiniões, responsáveis pelas grandes perturbações que se

apoderam da alma. Princípio de tudo isso e bem supremo é a

prudência. Por isso, ela é ainda mais digna de estima do que a

filosofia.” (Epicuro, Carta a Menequeu. In: Moraes, Epicuro: as luzes da

ética, 1998, p. 93).”

O tipo de prazer pregado por Epicuro gera ou busca a tranqüilidade da alma, dando ao homem que é justo a justiça e a serenidade, conceitos repletos de valores éticos importantes e também podem ser encontrados nas doutrinas Budistas e outras.

Observe com atenção, que os valores filosóficos, que tendem normalmente para a universalização de valores, bastam para uma busca de felicidade. Não existe a necessidade de gerar medo, como é padrão para a maioria das religiões ocidentais, com pregações sobre o inferno, pecado, culpa, o respeito a um deus místico qualquer, tudo repleto de hipocrisia, de falhas, de falta de sentido e contradições, mesclados e embasados em textos editados, reeditados, traduções nem sempre muito fiéis, etc.

A natureza inspirou e inspira o Homem que busca desvendar os seus mistérios. Especialmente no passado e ainda nos dias de hoje, a natureza recebe aspectos místicos e mágicos, e de diversas formas norteia o desenvolvimento humano. Muda a decoração, mudam os nomes dos deuses, mudam os tipos de devoção e rituais, porém, dela surgem as coisas, pois nela estamos incluídos. Compreenda natureza de forma bem ampla, como cosmos, como universo, que é algo que surgiu há Universo surgiu há aproximadamente 14 bilhões de anos e a vida, na Terra ao menos, há uns 4 bilhões. Interessante é tentar imaginar, uma vez que tudo é criação de um “Deus”, como muitos insistem em fazer, se existe um universo, um mundo... por que não existe naturalmente apenas um Deus??

De qualquer maneira, o homem sente falta de algo. Pode ser de mais ética, de mais lógica, de mais respostas.

Sempre acreditei que pensar leva a respostas porém pensar com a finalidade de busca da verdade só tem validade se conseguirmos abandonar o senso comum substituindo-o pelo senso crítico. Pode parecer um conceito Marxista, comunista ou outro qualquer semelhante, dizer que a classe dominante favorece a todos com a possibilidade de não pensar e de aceitar verdades impostas, avaliadas somente com o senso comum.

A alienação surge como um “conhecimento” natural e surge exatamente no senso comum. A realidade é apenas imaginada de forma fantasiosa sem que se tenha consciência.

Para explicar pobreza, por exemplo, temos oportunidade de ouvir todos os tipos de coisas:

- o miserável é pobre, mas é culpado, pois é preguiçoso e ignorante;

- é vontade de deus;

- ele é naturalmente inferior;

- e outras tantas frases de impacto, que até convencem a muitos.

Parando para pensar, podemos notar que não há realidade, e que tais pensamentos, tendem a legitimar e defender a classe dominante. Surgem “naturalmente” por elaboração de sacerdotes e semelhantes, cientistas, professores que ajudam a perpetuar tal tipo de pensamento e conceito, escritores, artistas e lamentavelmente, filósofos. Uma vez que estes detém o poder de ensinar e transmitir “conhecimento”, conseguem ser ponto de referencia e contaminam toda a sociedade.

A contaminação é necessária para que se mantenham as classes, e que todos aceitem a classe em que se encontram. Nossa sociedade esta formada de uma maneira muito rígida, o que dificulta ou limita a possibilidade de ascensão, então instrumentos de ideologia alienantes se fazem necessários. Da mesma forma, a religião é usada, como forma de controle social.

Como podemos perceber, não é exatamente fácil viver, ser feliz, e ainda, filosofar de maneira realmente isenta, crítica e científica. De certa forma, Epicuro nos dá um caminho para a busca da felicidade, que é bem razoável e possível, porém quero adicionar outros aspectos importantes, mais relacionados a nós e ao dia a dia.

Entre os maiores problemas vividos hoje, especialmente no aspecto emocional, está a ansiedade. Por definição, o que não é exatamente fácil de se fazer, ansiedade é ansiedade é um estado emocional caracterizado pelo medo, apreensão, mal-estar, insegurança, desconforto e muitas vezes vem acompanhada de uma sensação de que algo ruim irá acontecer.

Devemos procurar um meio, de viver plenamente integrados à natureza, ao cosmos. O tempo é para nós um grande problema. Vivemos do passado, onde ficam registrados bons e maus momentos, e viajamos freqüentemente imaginando nosso futuro. Onde está o hoje?

O passado pesa excessivamente, sendo pelas coisas boas vividas, trazendo às vezes a sensação de que não se repetirão, ou ainda, pelas más, pela mesma razão. Na verdade, não se repetirão mesmo, e isto deve ser aceito como um fato e terminado dentro de nós. Sentir-se ligado ao passado, ou viajando em miragens no futuro, faz com que não vivamos o dia de hoje plenamente.

“A maior parte das coisas que dizemos e fazemos não é necessária; quem as eliminar da própria vida será mais tranqüilo e sereno.”

Marco Aurélio

Filósofo estóico e imperador romano (121 – 180)

Então, devemos aprender a viver sem medos idiotas, sem saudades desnecessárias, abandonando o tempo, onde não deve existir passado ou futuro. Na verdade, passado e futuro não existem, pois estamos sempre no presente.

“Lembra-te que cada um de nós vive no momento presente, no instante. O resto é passado, ou obscuro futuro. Pequena é pois, na verdade, a extensão da vida.”

Marco Aurélio

Dois pensamentos de Sêneca (Lucius Annaeus Seneca (Córdova, 4 a.C. — Roma, 65 d.C.):

“O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.”

“As coisas que nos assustam são em maior número do que as que efetivamente fazem mal, e afligimo-nos mais pelas aparências do que pelos fatos reais.”

Então, precisamos nos livrar de sentimentos, idéias e medos, que na verdade estão fixados em absolutamente nada. O passado e as lembranças ruins do que houve nele, não são mais importantes, e o que nos reserva o futuro, ainda não nos diz respeito.

Existe apenas uma única realidade, e está acontecendo agora, a cada instante. Ainda citando Sêneca, “enquanto se espera viver, a vida passa

Não posso deixar de comentar também sobre o Estoicismo, que teve como fundador Zenão de Cício (336 a.C.- 264 a.C.). Acima já citei alguns dos pensamentos Estóicos, então vejamos do que se trata:

As conquistas de Alexandre o Grande (356-323 a.C.), fizeram com que a cultura grega tivesse divulgação e penetração por todo o mundo “civilizado” do período. A filosofia tem expansão e torna-se internacional. Durante pelo menos cinco séculos o estoicismo torna-se uma linha de pensamento organizado que domina o mundo.

Zenão era fenício, e também muitos de seus discípulos e colegas. Os “últimos” estóicos foram os romanos. Especial destaque para Sêneca (c. 2 a.C.-65 d.C.) que podia até não ser especialmente original e criativo em suas idéias, porém tinha grande capacidade de expressão.

Além do novo fato, de ser uma filosofia internacional, o estoicismo considerava que o homem devia ser um cidadão do mundo e atingia qualquer classe social. Em Roma, destaca-se o filósofo escravo Epicteto (55-135 d.C) e o imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.), demonstrando a influência da filosofia em diferentes classes.

No melhor dos sentidos, ao invés de perder tempo lendo coisas como livros de auto-ajuda, que tentam oferecer respostas simples para coisas extremamente complexas, devemos pensar o mundo lendo coisas realmente edificantes e que podem trazer reais mudanças ao estilo de vida do humano.

A ética e as questões morais são vistas pelos estóicos como superiores e mais importantes que as questões teóricas. Ou seja, a filosofia, seus textos e conceitos, tentavam propor maneiras de conduta para atingir uma vida melhor.

A sociedade contemporânea atual é basicamente de consumo e tende a realizar uma busca sem limites pelo prazer imediato. O grande erro está no fato, de prazeres imediatos se tornarem “nada” em pouco tempo, da mesma forma que uma criança perde logo o interesse por um brinquedo novo, mantendo sempre esta busca insaciável acesa.

Um estóico considera que animais são regidos por instintos e os homens pela razão. A razão apresenta o mundo como sendo a Natureza, sem que haja nada superior a ela. Deus não está fora da Natureza e sim impregnado nela.

Deus para os estóicos é uma razão seminal, é a mesma semente de onde tudo nasce, diferentemente de nosso conceito que coloca deus como o criador. Deus e mundo são unidade e o mundo é expressão da ordem divina.

As religiões cristãs tem como base a filosofia grega, especialmente Aristóteles que nasceu em Estagira, na Calcídica (384 a.C. - 322 a.C.) e em Platão de Atenas (428/27–347 a.C.), daí muitas das semelhanças. Engana-se aquele, que pensa no conteúdo dos textos bíblicos como originais.

Pelo fato da Natureza ser dirigida pela razão divina, tudo tem motivo pré estabelecido e não podemos mudar isso. Pregam a resignação como atitude. A indiferença das emoções pode ser alcançada pela prática da virtude. Chegavam ao ponto de aceitar que uma situação poderia ser tão desagradável que justificasse até mesmo o suicídio, que em certas circunstâncias seria a coisa mais racional a ser feita, desde que de forma indolor.

Pode-se notar, que a construção de nossas idéias hoje, é uma mescla de diversas filosofias muito mais antigas. Resta-nos a capacidade e o poder de avaliar e optar de forma realmente racional qual a melhor conduta, e como sentir o mundo tentando fazer com que se torne melhor.

Pessoalmente, opto neste caso por Epicuro, porém considero ambas válidas, pois uma vez bem aceitas podem agir em nosso emocional de forma a trazer alguma satisfação.

O único cuidado com relação a esta filosofia, é pensar no caso do desapego material. Lendo-se mais profundamente, pode-se ter a impressão de que o material não pode trazer felicidade. Dinheiro no mínimo, pode afastá-lo da pobreza, o que é condição para uma possibilidade de vida feliz, então não sejamos hipócritas citando coisas como “o dinheiro não traz felicidade”, porém a ganância certamente é um grande mal.

Um comentário:

thata disse...

No meu entendimento só foi falado do Epicurismo! e o Estoicismo cadê?